quinta-feira, 31 de outubro de 2019

MINHA RUA SÃO MIGUEL...


            

              Hoje decidi retornar o pensamento há alguns anos atrás. De fato, fazer memória lá onde tudo começou. Isso mesmo! Foi naquela pequena rua, uma das mais antigas de minha terrinha Senador Firmino, uma das que primeiro levou o progresso à nossa Conceição do Turvo, fazendo ligação para sair em Dores do Turvo. A rua mais conhecida, não tem erro para ninguém! Começa com aquele que leva a balança nas mãos, nosso querido São Miguel,símbolo do juízo final, e termina já com a condenação que é a antiga Cadeia. Por isso, Rua São Miguel, ou também conhecida como Rua da Cadeia ou da Sorveteria.
            Sei que nem todos sentirão a mesma coisa que eu sinto por ela, mas para mim contar um pouco da minha rua, antiga e sempre nova, das pedras e agora caminhando para o asfalto, é uma imensa honra, porque nesta rua passa a história de boa parte dos melhores anos de minha vida até então. Não só o espaço físico, mas principalmente pessoas, que marcaram e marcam a tão famosa Rua São Miguel. Esta rua assombrada porque abrigou, há anos, o antigo cemitério; e alegre, pois me viu crescer, me viu ir embora (este momento foi surpreendente, quando estava indo para o Seminário a rua quase toda, em frente de casa, parou para me saudar e se despedir, todos com olhos empapuçados desejando bom caminho), me vê alegrar por sempre retornar.
            Suponho que nossa rua recebe o nome e a grande proteção de São Miguel porque, conforme relatos, a antiga capela do primeiro cemitério da cidade tinha a imagem de São Miguel Arcanjo, que hoje se encontra no Santuário de Nossa Senhora da Conceição e este Cemitério era dedicado a ele. Podemos dizer que neste lugar habita sepultados alguns daqueles que foram os sustentáculos de nosso torrão. Por isso, ao passar pela Rua São Miguel lembremos que ali também começa nossa história, nunca esqueçamos de nossos antepassados firminenses. Ainda mais, a rua que dá para defronte do Santuário quer mostrar que nossa terra é sempre protegida e amparada pelo grande príncipe da Milícia Celeste, glorioso São Miguel Arcanjo, e está sob o patrocínio constante da Senhora e Virgem da Conceição, uma vez que o Santuário majestoso sempre está nos convidando à oração. Desta rua saiu em 15 de agosto de 1893, da antiga casa de Manoel Eugenio de Lacerda a procissão levando o quadro com a pintura do padre Jacinto Trombert, para homenageá-lo como benemérito sacerdote. Também de nossa rua saiu o povo em festa no ano de 1947 saudando em mutirão a posse do primeiro prefeito eleito Sogê (Geraldo de Oliveira Fernandes). Como podemos ver parte importante de nossa história passa pela Rua São Miguel.
            Com alegria e gratidão, ponho-me agora a tecer elogios aos grandes heróis que habitaram e habitam minha rua. Bem longe, ao avistá-la, já se impõe o antigo casarão onde habitou o saudoso farmacêutico Mário Bezerra e hoje mora a piedosa senhora sua esposa-viúva, dona Lurdinha. Logo ao lado, fazendo “bico” com a rua São Miguel, está a casa do grande político, homem de grande honra e história do município, o senhor Wilson Fernandes, e ao olhar para esta casa onde muitos enchem a varanda no dia 15 de agosto, não mais podemos ver aquele rosto de fé de dona Silvinha, mas que permanecerá vivo em nossa memória sempre nos chamando para as Novenas de Natal. Mais adiante, andando por nossa rua, podemos encontrar com ele sempre a caminhar e a lutar, Chico Pena, nosso amigo, homem de fé e de garra. Mais adiante ainda vem-nos à memória o Tarcísio do Correio, este já falecido e sua esposa, Maria do Telefone, ambos receberam o apelido pelos lugares onde trabalharam. Mais adiante, tio Joel d’Água, residente onde primeiro meus avós Geraldo Mariano e Maria de Paiva adquiriram, para morar mais próximos à Igreja. Depois, nunca me esquecerei da Ana do Correio, que também próximo a nós morou e hoje mora em Mercês.
Caminhando mais um pouco, encontramos tia Raquel do bolo e dos doces, que agora enfeita é vela para os sacramentos. Depois também estão eles sempre animados Pedro Nogueira e dona Marli. Ao lado está também o Gaudino, sempre na janela nos assistindo. Não podia me esquecer do tio Albertino do “Buteco” e da Fabrícia que está sempre a nos alegrar, viaja o dia inteiro no carro parado. Minha mãe, dona Isaura Mariano,sempre a andar pela rua e fazendo suas arrumações,e meu pai, Ciro Ambrósio, com seu charutão de pito. Mais adiante está Efigênia, que cuida sempre do seu quintal, e com seu jeito singelo nos acolhe com um sorriso. Andando mais um pouco lembraremos sempre das “ititas...”, Dona Quitita e Pitita, que já abrilhantaram nossa rua, e agora estão no céu. Pitita era antiga cabeleireira, possivelmente a primeira da cidade e Quitita, mulher de fé e também trabalhadeira.
Já à frente, o famoso “Escadão”, que liga São Miguel à Santa Cruz. Este nunca ninguém vai se esquecer, pois a história de Senador passa lá: são as brincadeiras e os antigos namoricos. Na sua esquina tínhamos a antiga residência das “Marques”, onde por último morou dona Nenega. Esta me encantava, aprendi a gostar da Rádio Aparecida, porque o seu rádio, às 9horas, sempre anunciava para a rua a Missa do Santuário Nacional e as vozes do Padre Vítor Coelho. Ao seu lado está minha antiga professora de Geografia, Silvinha Valente. Em frente tinha ela, Dona Josefina Benedito, antiga freira do SacreCuer de Marry, que muito me ensinou nas “Escolhinhas de Reza” que acontecia aos sábados. Não poderemos nunca esquecer que nesta rua está ele, o primeiro fotógrafo da cidade, o grande Ormeu Photos. Andando mais um pouco está Sôtero e Licinha, ali muitos passam para comprar da água ardente, ali nasceu a internet firminense Netstar. Logo após está o Tarcísio Pastor, antigo guarda do banco do Brasil, em seu antigo casarão. Ali, também tinha um consultório de ondotologia, morria de medo de passar perto. Porque, por mais que nos descem balões de mãozinhas, deve ser algum trauma de dentista. Logo em frente nunca esquecerei nossa grande mestra de fé e de singeleza do canto, dona Lúcia Benedito, que sempre me apoiou e incentivou a cantar e a rezar. Mais à frente, minha antiga professora de português, Maria José Moreira, quanta coisa me ensinou.  Também por perto está dona Fátima e o “Sô”Julim, ali ia para ensaiar os cantos para o desagravo ao Sagrado Coração de Jesus. Ao seu lado, dona Isa Carneiro, foi minha catequista. Logo em frente está nossa amiga Célia Moreira, sempre sorridente passa e logo damos altas risadas. Já encerrando nossa rua, está, quase caindo, nossa antiga “Cadeinha”, de onde meu avô foi delegado, onde por muitos anos abrigou os presidiários da região. Por fim, para concluir com chave de ouro, ainda temos o antigo prefeito com sua torre exuberante, é ele, Achiles Benedito.
            Nossa rua é assim, de heróis ao extremo, ainda pra completar temos também os que hoje desejam ser heróis para continuar abrilhantando nossa história e o futuro de nossa terra firminense e de nossa nação são eles: arquitetos, químicos, psicólogas, médica, agrônoma, motoristas, engenheiros, professora, seminarista. Quanta história ali passamos: era pique-pega, pique-esconde, queimadas até altas horas da noite, escolhinha na garagem e, para fechar a rodagem, ainda tinham as famosas “missinhas”. Minha mãe ficava doida correndo de um lado ao outro atrás da gente, brincando também; meu pai, assistindo seu jornal e sua novela, isso quando não estava na varanda a nos “bizoiar” com o charutão de papel e seu fumo de rolo. A escolhinha na garagem era uma muvuca só, mas não dava confusão. Nesta rua também sempre passava pelas manhãs nosso querido Sô Fizinho do leite, era a hora mais esperada, deixávamos os estudos para passear de charrete pela cidade.
Nossa rua vivia sempre cheia, parece que vinham crianças da cidade toda, não havia sossego. Os adultos sempre reclamavam, mas hoje é um silêncio mais pacato, só ouvindo os barulhos dos carros. Quanta falta sentirão, em tempos de tanta confusão, porque antes a alegria não dava espaço, os gritos aos extremos de nós crianças eram o grande “arco-íris” que fazia ali resplandecer. Toda noite era festa, começávamos com a queimada no meio da rua, atrapalhando até o trânsito, que na época também já não era tanto. Depois, logo passávamos aos piques, à polícia-ladrão e, muitas vezes, encerrávamos com a “missinha”. O mega-fone de tubos de linha das janelas do casario Mariano sempre anunciava morte, horários de missas, até a greve dos professores, como uma vez fui solicitado. Ah, e como se esquecer, tinha também hora cívica, canto do hino nacional e hasteamento da bandeira no 7 de setembro, além de sair dali também as famosas “bênçãos”. Nós, crianças, com as jovens de então, fazíamos a Rua São Miguel virar um verdadeiro parque de diversão.
Foi ali que amizades cresceram e se firmaram, alguns hoje distantes, mas sempre conectados por saudosa lembrança. Nunca esqueceremos nossa era sem internet, porque com isso aproveitamos para brincar, criar laços e raízes e muito mais para aprender a amar nossa história e nossa terrinha, esses são nossos grandes valores. Eh São Miguel, no quintal de dona Isaura, minha mãe, no antigo cemitério, está enterrado meu umbigo.

Wesley Pires dos Santos
2º Ano de Teologia


                                                 
Posse do 1º Prefeito Eleito, Geraldo de Oliveira Fernandes (Sogê) - Esquina da Rua São Miguel com a Praça Raimundo Carneiro - 1947


Rua São Miguel - Centro - década de 1950.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

MENSAGEM POR OCASIÃO DO 1º ANIVERSÁRIO SACERDOTAL DO PE DANIEL FERNANDES


 
“Quando aurora da vida feliz surgiu, um jovem deixou seu lar e para o além partiu, em casa mamãe saudosa sozinha orava e ele feliz e alegre as almas guiava. Sacerdote feliz o teu lema é de luz, teu mister é nobre e santo, teu viver é no altar. No altar como um belo lírio de paz reluz, só vive para servir e amar Jesus. E quando na hóstia pura ele se oferece a Deus pelas almas que nunca esquece”.

Padre Daniel Fernandes Moreira, queremos juntos neste dia ao redor da Mesa da Palavra e da Eucaristia rendermos hinos de ação de graças por sua vida e por seu Sim dado a Deus nestas terras firminenses há um ano. Alegria maior para nós seus conterrâneos, que podemos incluir o seu nome no número dos mais de 20 sacerdotes que deixaram nossa terra para o serviço de Deus e de sua Igreja. Muitos dos que estão aqui te viram crescer, te acompanharam no caminho da fé, mais ainda, alguns foram os que te ajudaram neste caminho, sendo catequistas, vicentinos e de outras pastorais. Acompanhamos os seus passos também durante o discernimento e a resposta da vocação. Um rapaz de uma fé viva que desde menino deixava seu lar para visitar especialmente os mais enfermos e necessitados. Agora um homem de Deus que sai a pastorear, que sai a profetizar, que sai a anunciar o nome de Cristo com a própria vida doada. Nesta terra que exala fé, que está sob o Manto sagrado da Senhora da Conceição do Turvo e sob o grande exemplo de sacerdote que foi Padre Jacinto Teófilo Trombert, queremos suplicar a estes a intercessão junto de Deus para que Ele derrame abundantes graças sobre sua vida e ministério. Ser Sacerdote é ser homem para o outro, é constantemente esvaziar-se de si mesmo para se encher deste totalmente Outro que é Deus, para depois se dedicar ao serviço do seu povo santo. Para isso, como o senhor bem sabe exigiu e exige renúncias, mas acima de tudo, temos a certeza de que Deus está conosco a nos guiar e quando fazemos por Amor, nos sentimos realizados. Por isso, pedimos também a sua constante felicidade no Ministério. Continue sendo este padre a irradiar a Alegria que vem de Deus em um mundo tão sem esperança, continue a espalhar o bem onde há o mal, continue a espalhar o amor onde há sofrimento, continue a espalhar vida onde há morte, continue a espalhar o seu sorriso para que o povo cristão nunca desanime mesmo diante das limitações da vida, continue espalhando a esperança, mostrando que nossa vida se encerra em Deus unicamente e por isso, somos convocados a santidade e a transformar o mundo com o amor. Santa Madre Teresa de Calcutá dá algumas sugestões importantes a um consagrado, e gostaria de compartilhar com o senhor neste dia, para que continue renovando o seu Sim. Primeiro: ser fiel ao Sim dado, contando sempre com a ajuda fidelíssima da Santíssima Virgem Maria, é ela que sempre acompanha os vocacionados do Pai. Segundo: tornar-se pobre, no sentido de se esvaziar cada dia mais de nosso “eu” para deixar com que Cristo seja Tudo em nós. “Não é quanto realmente nós ‘temos’ para dar, mas quão vazios nós estamos, a fim de podermos recebê-Lo por inteiro em nossa vida e de O deixarmos viver a vida Dele em nós. Sigamos o que Madre Teresa diz: “esta é a pobreza de Jesus. O senhor e eu devemos permiti-Lhe viver em nós e através de nós no mundo”. Por fim, Padre Daniel, tenha sempre a certeza, principalmente quando alguma tempestade vier balançar o seu “barquinho”, Jesus está neste barco e Ele é o guia, é Ele que te convidou para apascentar a ovelhas que é Dele e Ele sempre te ajudará neste serviço. Além disso, nosso povo firminense reza constantemente pelos vocacionados e filhos de nossa terra e são estas orações que sustentarão sempre o ministério do senhor. Parabéns pelo seu Sim, por sua vida doada. Muitas e muitas felicidades em seu ministério sacerdotal. Estes são os votos de todos os firminenses!


- Mensagem ao Pe Daniel –
1º Aniversário de Ordenação Sacerdotal

13 de Outubro de 2019 


sexta-feira, 31 de maio de 2019

O GIGANTESCO SEGREDO DA ALEGRIA


            


             A vida religiosa contemplativa, presente nos Mosteiros, é, de fato, o sustento do mundo e da Igreja. Certa vez um determinado autor disse: “Uma pequena comunidade de monjas anciãs, que, humanamente falando, está no fim, morrendo, consola mais o mundo do que uma grande comunidade florescente que pensa que é preciosa e fecunda pelo que faz e expressa, e por como faz e expressa o que faz”. Partindo dessa premissa, vamos comparar o mundo corrido e acelerado de hoje, com a vida religiosa contemplativa.

            Neste contexto secularizado, grandes preocupações pelo desempenho rápido e produtivo, bem como uma vida profissional eficaz, têm ganhado destaque. Por conseguinte, cada vez mais, se tem aumentado as doenças psicológicas como a depressão, a síndrome do pânico, síndrome de burnout. A meditação, o silêncio, a leitura já não têm espaço para o ser humano “evoluído”, da produção, da cultura tecnocrática e pragmática. Isso tem acontecido por que as pessoas não se dão conta de si, da sua real identidade, e, mais ainda, não estão tendo tempo para os seus e nem para si mesmas. Com isso, pensa-se mais no lucro, no profissionalismo, no desempenho eficaz e esquece-se do cuidado consigo e com os outros. 
            O mundo evolui rapidamente. Novos meios e objetos tecnológicos estão substituindo o trabalho humano, não havendo necessidade mais de mão-de-obra em tantos serviços.  Tem-se, no entanto, uma grande ilusão de que esses meios são os responsáveis por levar o homem à felicidade. Há uma felicidade extremamente paradoxal, no qual, para ser feliz, segundo os parâmetros mundanos, deve-se consumir cada vez mais e mais. Todavia, o consumo não colabora na completude desse coração tão necessitado de sentido para sua vida.
            Os Shoppings se tornaram ironicamente “Casas de Retiro” no mundo capitalista, desejando sugar cada vez mais o ser humano de si mesmo. Ademais, são um lugares selecionadores, nos quais só entra quem tem condições para comprar. Ali, pessoas conseguem passar o dia todo passeando pelas lojas, comprando, indo ao cinema, alimentando-se, uma verdadeira cidade comercial. Não se veem relógios, para não induzir a pensar no tempo cronológico e nem pensarem no mundo que continua a girar fora. Uma verdadeira fuga da realidade. Além disso, mostra-se nesses lugares o ideal da felicidade: qual a melhor roupa que se deve comprar, qual o alimento, qual o ideal de aparelhos, e por aí vai. O corre-corre continua, as preocupações e os problemas permanecem existentes, estão sendo camuflados, jogados para “debaixo do tapete”.
            Ao contrário disso, no meio de uma grande metrópole, na capital mineira, em meio ao barulho dos carros e das pessoas, eis que me deparei com um lugar diferente, do qual desejo dar testemunho. Lugar do Silêncio, da Meditação, da Contemplação e do Trabalho. Em plena modernidade, mais de 40 mulheres vivem em uma comunidade monástica, no Mosteiro Nossa Senhora das Graças, conforme a Regra de São Bento, escrita no século VI. De fato, um verdadeiro testemunho de vida para todos nós que vivemos nesta correria diária. Essas religiosas, que a partir do encontro com o Ressuscitado, foram capazes de perceber o que é o essencial para vida. Perceberam que a verdadeira felicidade não são as compras, o poder, as honras, as riquezas, o prestígio, o muito fazer, mas é o viver na simplicidade, no despojamento de si. Gastam seu tempo rezando nas diversas horas o Ofício Divino santificando cada momento do dia e intercedendo pelo mundo, também em boas leituras, em meditações espirituais, e, também, no trabalho diário. Percebem os sinais de Deus nas pequenas coisas. Uma vida vivida na humildade, no reconhecer de que não somos capazes de tudo, e, muito menos, que devemos ser perfeitos para fazer tudo com eficiência, acumulando riquezas.
           Vale a pena ressaltar, que o monge não é aquele que foge do mundo e nem pode ser, pois como bem disse Thomas Merton, “o monge tem de permanecer real, e só o poderá ser mantendo-se em contato com a realidade”. Por isso, diante das incongruências do mundo são pessoas que conseguiram encontrar-se com a verdadeira felicidade e possuem a verdadeira liberdade.
            Percebi no sorriso de cada irmã, um reflexo de pessoas que, de fato, encontraram a alegria, a razão de ser e estar neste mundo, mesmo diante dos desafios. Pessoas que reconheceram o potencial único que se tem dentro de cada um. Nós que estamos aqui do lado de fora dos muros do Mosteiro, temos também um gigantesco segredo da alegria dentro de nós, como estas mulheres de Deus. Por isso, não podemos deixar com que o mundanismo nos roube o essencial de se viver, nos roube a nós mesmos. Precisamos parar um pouco, fazer silêncio, nos ouvir, fazer uma boa leitura que nos engrandeça, uma meditação e até mesmo relaxar de vez em quando para que não percamos o sentido de viver e muito menos o essencial. Já dizia Saint Exupéry na obra “O Pequeno Príncipe” que “o essencial é invisível aos olhos, mas visível ao coração”. De tal maneira, se não ficarmos atentos, não adentrarmos o nosso ser mais profundo, nunca encontraremos o essencial para se viver, mas, ao contrário, buscaremos cada vez mais o que é supérfluo.
            O grande diferencial dessas irmãs pode ser observado por meio da vida de oração e da liberdade interior que buscam viver cotidianamente. Por isso, é um grande escândalo para o mundo. Descobriram o essencial da vida. Por isso, termino exortando: “não temas o essencial!” (Dom José Tolentino de Mendonça), pois, dentro de cada um há o gigantesco segredo da alegria.




Wesley Pires dos Santos
Seminarista da Arquidiocese de Mariana


Mosteiro Nossa Senhora das Graças - Belo Horizonte - MG.

Monjas Beneditinas


segunda-feira, 13 de maio de 2019

NOSSA SENHORA, MULHER DA ALEGRIA!


Quem és tu ó Maria? És tu ó Mãe que celebramos neste mês de maio, mês de alegria, de lindos cantos, Mês de Maria. Maria, mulher singular, mulher do povo, pobre como aqueles que se esvaziam de si mesmos para se encherem e enriquecerem unicamente do próprio Deus. Mãe do povo, Mãe de um mundo novo, ó Mãe de Jesus. Mãe da Igreja, mãe da Esperança e Senhora da Luz. Maria de vários títulos, hoje a congratulamos como a Mãe da Alegria, aquela que com seu Filho também se irradia transmitindo ao mundo a alegria de uma vida nova que ressurge na cruz. A alegria nasce na pequenina Nazaré quando o Anjo a saúda “Ave, ó cheia de graça” (Lc 1,28). És tu ó Maria, a plena de alegria. Aquela que nesta pequenina vila, recebeu de Deus uma grande Missão. Foste escolhida entre todas deste mundo, para ser instrumento da obra da salvação.
            Quem és tu ó Maria? Mulher de garra, conhecedora dos nossos desafios, mulher trabalhadora, sempre lutando em meio às dificuldades, no silêncio diário, nos pequenos trabalhos foste de Deus a grande aprendiz. Mulher do lar e educadora da fé dai-nos a graça de, nesta escola, nos matricularmos constantemente. Mesmo diante dos desafios e dos temores, a alegria esteve sempre presente em ti, encorajando-a a sair de si para servir, assim como fez partindo para a casa de sua prima Santa Izabel. Mulher do serviço, teu Sim transformou nosso mundo e nossa fé.
            Quem és tu ó Maria? És a Mãe da Alegria, que nunca perdeu a esperança nas promessas do Deus de Israel. Cumprindo até o fim a Missão de Mãe. Acompanhou seu Filho Jesus desde o nascimento até a paixão e morte. Hoje, O acompanha na Ressurreição alcançando com Ele sua Assunção. No céu continua a interceder por todos nós seus Filhos entregues a ti no alto da Cruz. Mulher da Esperança que continua a mostrar ao mundo sofrido e desanimado que a resposta para suas crises é unicamente o seu Filho amado. Repete constantemente a nós: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (Jo 2,5). Assim, nos mostra que nossa vida é eterna e que aqui estamos como peregrinos, pois nossa meta é o céu.
            Eis-nos diante de ti, ó Mãe da Alegria, neste mês de louvores em que a ti ofertamos lindos gestos de amores por meio de tantas flores. Queremos como discípulos sermos também, neste mundo, homens da alegria e da esperança. Queremos levar ao mundo o teu Filho Jesus. Sabemos que para alcançarmos tão grande felicidade obtida pela Ressurreição precisamos igualmente passar pelo caminho da Paixão. Neste caminho contemplamos igualmente as diversas alegrias que a Senhora tivestes nesta vida. Alegria que somente aqueles que se entregam ao projeto de Deus podem alcançar. “Onde há um consagrado não pode haver tristeza”. Aquele que diz Sim a Deus, não deixa em sua vida espaço para lamúrias, desânimos ou tristezas, mas deixam Deus preencher sua vida com a “água viva” da verdadeira alegria e, igualmente, a distribui aos outros para que também experimentem tão sublime graça.
            Dai-nos a graça, ó Mãe, de sermos homens novos, instrumentos da Alegria para um mundo novo, para um mundo tão marcado pela morte, pela violência, pela dor, pela pobreza. Sejamos nós sinais do Ressuscitado no mundo. Que nossa entrega seja autêntica para que Nosso Senhor seja, de fato, o centro e a razão de ser da vida de nossas comunidades cristãs.
            Maria do Sim, Senhora da Alegria, Maria do povo, Senhora do mundo novo, Rosa mais bela e esplendorosa que pode haver. Mãe das vocações cuidai de todos nós vossos filhos. Aceitais estas flores que a ti ofertamos com louvores. Amém!

Wesley Pires dos Santos
Seminarista da Arquidiocese de Mariana


Mês de Maio - SENADOR FIRMINO - MG.



domingo, 10 de março de 2019

QUE VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?



      Basta afastarmo-nos um pouquinho do corre-corre do mundo e então conseguiremos nos deparar conosco mesmo e pensaremos qual o sentido que me impulsiona a viver. A Quaresma é um tempo propício em que a Igreja nos convida a mergulharmos no mais íntimo do nosso ser para nos reconhecermos não mais santos ou mais perfeitos do que os outros, mas reconhecermo-nos humanos. Já parou para pensar quantas e quantas vezes você deixou de viver de fato sua humanidade? Quantas vezes o “outro” tantas vezes nos condiciona e nos ajuda a fugir de nós mesmos? Quanto tempo você tira para pensar em você, em seus desejos, em suas necessidades? Quase nada não é verdade. Justamente por isso, acabamos por nos rebaixar, por deixar-se guiar por nossas mazelas e por nossos instintos ou até mesmos nos extasiamos com calmantes, drogas, uma sexualidade desregrada. Por quê? Porque queremos fugir de nós mesmos, fugir de nossa humanidade, para não reconhecer que nós não somos tudo, mas que somos também limitados. O mundo nos vê como robozinhos, máquinas para consumir ou para produzir. Mas não, nós somos humanos, somos sentimentais, e também racionais, podemos pensar em nossa condição.
Como diria o filósofo francês Blaise Pascal: “Somos grandeza, mas também miséria”. Enquanto não olharmos para dentro de nós mesmos, para buscar o Totalmente Outro (Deus) que habita o mais profundo do nosso ser, passaremos a vida toda relutando com a gente mesmo e fugiremos de reconhecer quem verdadeiramente somos. Ficaremos a vida toda buscando apenas coisas fúteis para saciar o profundo vazio que há dentro de nós e não nos preencheremos de fato com este Totalmente Outro, único capaz de preencher o nosso vazio existencial. Porque somente o Cristo é o Homem Pleno, que viveu plenamente e perfeitamente sua humanidade, não fugiu de reconhecer o seu verdadeiro ser. Pelo contrário, desde o início de sua Missão conhecia sua real identidade de Filho de Deus. Deixemo-nos guiar por Ele.
Há alguns anos após a festa do Carnaval tenho pensado muito e me questionado mais ainda. O que realmente estamos festejando nesta festa? Será a vida? Mas que vida é esta que se festeja embriagando o máximo que se pode, chegando ao ponto de não se lembrar de nada que viveu na noite passada do Carnaval, não se lembrando nem mesmo o que bebeu? Que vida é esta que está sendo festejada, após usar vários tipos de drogas e até estado em êxtase não se lembrado nem onde está, nem que é? Que vida é esta que está sendo festejada, que após ficar com várias pessoas e até mesmo transar com várias, não se sentiu amado (a) por nenhuma e nem mesmo transmitiu amor, pelo contrário só se usou ou foi usado como objeto de satisfação de prazer? Que vida é esta que está sendo festejada, que bebe e come a vontade, depois sai dançando e rebolando e se expondo ao ridículo quase nu, despido às vezes de sua real dignidade atrás de um carro com músicas que te chama de “cachorra” e de tantos nomes que rebaixam a sua dignidade de ser humano? Que vida é esta que se festeja, na qual se faz totalmente uma apologia ao sexo, as drogas? Que vida é esta que se festeja, quando você pensa estar vivendo a Liberdade, mas é o outro, imbuído no sistema que está te controlando?
Já faz algum tempo que perdemos nosso verdadeiro Carnaval. Não se vive da verdadeira alegria. Quantas brigas por causa da embriaguez. Infelizmente muita coisa ao invés de edificar nossa juventude, está rebaixando-a ainda mais em seu real valor. Aumenta ainda mais os suicídios, as síndromes do pânico, a depressão. Qual o sentido você tem abraçado para sua vida? Adélia Padro vai dizer que o que confere dignidade a vida é o que dá sentido a ela. Perdemos o sentido da vida porque muitas vezes a esvaziamos da realidade e buscamos algo fora de nós que pode estar mais dentro do que fora, para preencher nosso vazio. Fugimos para nao enxergar a realidade que nos cerca, fugimos da reflexão e da meditação. Tudo isso, para não pensarmos em nossa real condição e nossas faltas cometidas. Quando paramos para pensar temos a oportunidade de experimentar o perdão. Temos que inverter as nossas buscas por preencher nossos vazios. Nós somos sujeitos de nós mesmos e de nossa caminhada e muitas vezes buscamos nos outros ou nas coisas, repostas que se encontram dentro de nós mesmo.
O verdadeiro sentido se faz quando me encontro com minha humanidade que é tão imbuída da presença de Deus que me criou. Aí sim nos colocaremos na condição de criaturas e totalmente dependentes deste verdadeiro amor que se traduz como Ágape, único capaz de me amar de fato e de me ajudar a viver minha humanidade, fazendo com que eu também viva este amor na Caridade aos irmãos e irmãs. Quanto mais humanos formos, mais divinizados seremos! A Quaresma é este tempo de graça que Deus nos concede para pensarmos em nossa humanidade. Para adentrarmos o Deserto da vida, a nossa intimidade e para purificá-la, preenchendo-a do único e verdadeiro Amor. Ao terminar os dias de Carnaval, após muitos viverem exageradamente os excessos da “carne”, porque estão em busca por preencher este vazio. Eis que a Igreja como Mãe nos convida a adentrarmos o Deserto da vida com Cristo e a enfrentarmos as tentações que nos afligem não para deixarmo-nos vencer por elas, mas para que guiados pelo Espírito Santo possamos vencê-las, não só na Quaresma, mas durante toda nossa vida. Vivemos bem este tempo de Graça! Lembre sempre desta frase: “Quando a vida se fez noite, Ele se fez estrela brilhante. Quando os medos atormentaram, Ele se fez cessar as ondas. Quando tudo pareceu perdido, Ele apontou o caminho. Ele ensinou a caminhar”.

Wesley Pires dos Santos
2º Ano de Teologia.

-Escrevi esta reflexão após o Retiro ESPIRITUAL com o tema: "A Espiritualidade da FALTA". Deixemo-nos guiar por Deus nesta caminhada Quaresmal alcançando o mais profundo do Deserto da nossa existência. Que caminhemos sempre orientados por Ele que é Deus e Homem verdadeiro-

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

MENSAGEM DE AÇÃO DE GRAÇAS pelos 80 anos de Emancipação Política da Cidade de Senador Firmino-MG.


Te Deum Laudamus Dei. A Ti ó Deus Louvamos pelos 80 anos da emancipação política do Município de Senador Firmino, e muito mais rendemos graças a Deus por intermédio da Virgem e Senhora da Conceição do Turvo pelos vários anos de história que tem essas terras firminenses. Já dizia o senhor José Sérvulo de Carvalho sobre o nosso povo e sua religiosidade: “Que nosso povo seja um dos mais religiosos da região é coisa de que ninguém duvida. Sempre vivemos em função da Igreja. Lá, o nosso começo com o batizado, nosso fim com a encomendação. A casa mais bela é o Santuário, o homem mais importante, Padre Jacinto Trombert. Ali, os nosso momentos mais alegres: as corações do mês de maio, os casamentos festivos, a festa do Rosário. O Jubileu, nossa festa máxima. É tempo de real júbilo, uma festa meio laica, meio religiosa”. Por isso, neste aniversário da nossa cidade, queremos comemorar com alegria estes 80 anos de emancipação também neste majestoso Santuário construído pelo saudoso Cônego Jacinto Trombert, aos pés de nossa Mãe a Virgem da Conceição que do seu trono sempre nos assiste com sua intercessão e com seu amor de Mãe, saudamos neste dia de forma especial a excelsa Rainha e Padroeira desta cidade de Senador Firmino. De forma especial rendemos graças a Deus nesta Celebração Eucarística por nossos antepassados que fizeram a história deste município progredir e que hoje junto de Deus se unem a nós por meio desta ação de graças. Nada mais justo é do que celebrar o aniversário de nossa cidade com esta Missa, maior ação de graças que podemos fazer a Deus, pois foi com as bênçãos Dele e sob o Manto Sagrado da Senhora da Conceição do Turvo que estas terras foi se desenvolvendo, foi sobre o olhar Dela e graças ao empenho e testemunho de virtude do Pe Jacinto Teófilo Trombert que aqui se amadureceu a fé dos firminenses, graças a tão belo testemunho que somos reconhecidos como uma das cidades mais católicas do Estado de Minas Gerais. Além disso, queremos reconhecer diante de Deus o testemunho e o trabalho de tantos outros que trabalharam e deram a sua vida pela edificação deste município, tantos prefeitos, vereadores, secretários e demais profissionais que com seu serviço digno e honesto edificam no cotidiano a vida de cada firminense. O que fazem os poderes constituídos o executivo, o legislativo, o judiciário, nada mais é do que um serviço prestado a comunidade firminense e para que todos cidadãos sejam bem atendidos de acordo com suas necessidades. Pedimos a Deus nesta celebração que haja em nossa cidade cada vez mais Paz, Harmonia e Fraternidade, que sejamos de fato irmãos e irmãs solidários uns com os outros. Afaste de nós qualquer pensamento egoísta e individualista e acima de tudo afaste de nós a corrupção, para que todos tenham vida e vida em abundância. Que os nossos governantes sejam de fato servidores do povo. Comemorar aniversário de nossa cidade é muito mais do que um marco na vida de cada cidadão, é sim, um momento de renovarmos diante de Deus nosso desejo para conquistar novos sonhos, novas realizações e continuar reescrevendo a nossa nova história, da qual cada um de nós que aqui estamos hoje somos responsáveis e construtores. Por isso, com orgulho devemos comemorar o aniversário do nosso município e, sinceramente, quem também merece ser parabenizado é o povo de Senador Firmino, a nossa Princesinha da Serra. Senador Firmino, cidade de um povo de fé, hospitaleiro e trabalhador que tem em sua história muitas lutas. Desejamos que cada munícipe seja um ponto de apoio nesta construção diária, com valores sólidos que ajudem a preparar as crianças e os jovens para esse processo contínuo de transformação. Semear ações e colher conquistas, buscando no presente o futuro!Desejamos que as conquistas da nossa comunidade sejam sempre crescentes, demonstrando que somos nós que fazemos o amanhã e que nossa perseverança é a luz que ilumina o caminho rumo a uma Senador Firmino melhor, a uma Princesinha da Serra mais reluzente de beleza. Parabéns a todos que diariamente cumprem sua missão, contribuindo assim com o desenvolvimento do Município; buscando sempre novos projetos e aceitando o desafio de fazer uma Senador Firmino que tanto sonhamos. Que Deus continue abençoando nossa terra, nossas famílias e nossos governantes. Que a Virgem Maria, Senhora da Conceição do Turvo ampare a cada firminense onde quer que esteja e nos auxilie com seu amor de Mãe. Ó Senhora da Conceição do Turvo, padroeira desta terra querida, ouvi hoje ó Mãe de Bondade as preces desta comunidade. Por fim, nesta solene ação de graças queremos renovar a nossa fé e renovar a consagração da cidade de Senador Firmino nestes 80 anos ao Coração Imaculado de Maria cantando a Consagração.

Seminarista Wesley Pires dos Santos

terça-feira, 2 de outubro de 2018

SER JOVEM, SEM DEIXAR DE SER DE DEUS!


            
            Estamos prestes a iniciar na Igreja um Sínodo com a temática específica sobre a Juventude, a partir da reflexão: “Os Jovens, a Fé e o Discernimento Vocacional”. Papa Francisco volta o seu olhar de pai, pastor e amigo, especialmente a nós jovens e deseja nos escutar para que a partir disso a Igreja possa traçar metas e pistas que favoreçam o próprio rejuvenescimento deste mesmo corpo de Cristo através da escuta atenta aos mesmos jovens. Em meio a este mundo globalizado e conturbado envolto por mudanças rápidas, nos perguntamos: É possível ser jovem sem deixar de ser de Deus?
            A reviravolta científica trouxe grandes avanços à humanidade, e igualmente trouxe consigo grandes perigos ao próprio homem, marcado também pela fragilidade e miséria. No entanto, o homem que se sente agora o centro da humanidade, por sua auto-suficiência, pensa-se alcançar tudo por meio do cientificismo. A ciência tornou-se parâmetro para julgar os valores fundamentais do homem e sua história, e até mesmo a própria existência de Deus. Com isso, este mesmo homem moderno deixa Deus de lado, e até mesmo declara a “morte de Deus”. Perdendo o seu único fundamento, não consegue por si só o equilíbrio que irá dar suporte a sua vida e muito menos encontrar este sustento em outros que estão a sua volta. Deve-se reconhecer em sua real condição. Somos grandeza pela Razão que nos fez alcançar o progresso das ciências. Contudo, somos também miséria, fragilidade, somos limitados e necessitados deste Deus que deixamos de lado.
 Em um curto período de tempo, muita coisa se transforma na vida do ser humana, especialmente em nossa época. Desta forma, podemos dizer que não vivemos em uma época de mudanças, mas uma mudança de época. Conforme exprime o Documento de Aparecida: “Vivemos em uma mudança de época, e seu nível mais profundo é cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus; ‘aqui está precisamente o grande erro das tendências dominantes do último século... Que exclui Deus de seu horizonte, falsifica o conceito da realidade e só pode terminar em caminhos equivocados e com receitas destrutivas” (DA. 44)
 Tudo muda muito rapidamente e às vezes nem conseguimos viver e refletir bem sobre o momento e muito menos conseguimos acompanhar a mudança. Isso acontece tanto, para os adultos, bem como também para crianças e jovens. Por isso, nossa época é marcada por tantas incertezas e tantos medos. Nossa juventude é marcada pelas doenças psíquicas mais agudas, como depressão, síndrome do pânico, causa dessa insegurança e dificuldade em assumir a vida em si mesma. Daí a necessidade do Discernimento vivenciado a luz da Fé para as decisões e escolhas sobre a nossa vida, como propõe a temática do Sínodo da Juventude.
            A hiper tecnologia ajuda neste processo de transformação mundial por meio da globalização que afeta a todos, ricos e pobres, crianças, jovens e adultos. A felicidade é paradoxal como bem retrata em sua obra Gilles Lipovetsky. Ao mesmo tempo em que a pessoa se sente feliz e realizada por ter algo: um smartphone, um tablet, uma televisão, ou demais tecnologias de última geração. Somos sempre induzidos e manipulados pelos meios de comunicação, a adquirir mais e mais. Além disso, a indústria farmacêutica lucra abundantemente, porque os remédios nunca foram tão procurados como agora, mesmo diante das mínimas dores. O mesmo homem é estimulado a ser um “Super-Homem” nas mesmas delineações ditas por Lipovetsky. A auto-suficiência toma posse deste homem egocêntrico, que quer se livrar de toda maneira de reconhecer a sua real condição e durante toda a sua vida está a fugir de si mesmo. Os jovens que fazem parte desta geração “hiper conectada” são os mais afetados por estas situações, marcados por medos e inseguranças do futuro que esta por vir. Por isso, sentem na “pele” a dificuldade em assumir as responsabilidades da vida, dificuldade em discernir sobre si e suas escolhas. 
A passagem a vida adulta exige acompanhamento dos pais, dos familiares e das principais instituições, que estão à volta de nossos jovens. Porque, justamente neste período é tempo também do jovem construir a sua real identidade. Para isso, é necessário sentir também suporte e abertura por meio destes que fazem parte de sua existência. Todavia, é preciso que haja sempre liberdade, para que os jovens na liberdade de sua consciência façam suas escolhas a partir de um discernimento maduro. Não se sintam de forma alguma pressionados ou até mesmo forças externas tentem desconstruir tudo o que foi sendo construído desde a infância. Como vem acontecendo nos últimos tempos, tantos que deixam seus lares, suas famílias, suas cidades para adentrarem no mundo universitário e acabam facilmente sendo induzidos ou pressionados por forças externas. Por não terem edificado bem suas convicções, acabam transformando seus ideais e valores a mercê de um mundo secularizado e plural onde não há um fundamento definido. Com isso, são influenciados por novas filosofias e acabam deixando de lado tudo que fora construído desde a infância.
Diante disso, a Igreja não cansa de ressaltar a importância dos pais na formação integral dos filhos. Os pais são os primeiros educadores e catequistas, os primeiros passos na fé são dados juntos aos pais. O primeiro alimento, a “papinha” é dado pelos pais, depois é fortalecido pelas instituições como a Igreja, a Escola e Universidades. No diálogo os pais devem fornecer este suporte aos filhos. Deixando com que as decisões possam ser tomadas pela liberdade do discernimento, longe de pressões ou mesmo definirem o futuro vocacional dos filhos.
O grande problema é que muitos pais, não estão assumindo a responsabilidade sobre a formação dos filhos, tanto na fé, como na educação. Isso, cada vez mais está sendo transferido para as instituições. Desta forma, muitos dos nossos jovens acabam não construindo de fato a base fortalecida que irá ser o sustento em sua existência. Aqui está o grande perigo que incorremos. Justamente, por isso, acabam se perdendo facilmente em dizeres falaciosos que tiram todo o suporte de suas vidas sem dar a eles de fato um novo fundamento, um pilar onde se apoiar. Assim sendo, muitos que não encontram este suporte nas famílias e demais instituições, acabam buscando na violência, nas drogas, numa sexualidade desintegrada, no mundo virtual, meios para construir o que não fora construindo antes, buscando sempre um sentido para vida.
No entanto, se você pensou estar num mundo sem saída, você errou! Pelo contrário, somos jovens, marcados igualmente por sonhos, por desejos ardentes de construir um mundo novo a nossa volta, queremos ser protagonistas deste mundo sonhado por Deus. Muitos por ai, principalmente no meio universitário declara em sua ignorância que é ultrapassado, ou que é brega acreditar em Deus e seguir alguma religião. É preciso mostrar a eles com nosso testemunho de cristãos autênticos que uma coisa não anula a outra. Deus não anula a Liberdade humana, como muitos pregam por ai. A verdadeira felicidade, não aquela transitória que está no sexo, nas bebidas, nas festas, nas baladas, mas a felicidade plena só pode ser encontrada de fato em Deus, fundamento do ser criado que é o homem.
 É possível ser jovem, sem deixar de ser de Deus. É possível estar no mundo, ir a uma festa, ser universitário, sem deixar de ser de Deus. É possível sermos protagonistas deste mundo novo, um mundo com mais fraternidade, cheio de paz e amor, cheio de partilha, onde ninguém seja excluído, sem violência. É possível sermos Igreja Jovem, porque a Igreja está de portas abertas para nos escutar, para nos acolher, porque esta Igreja somos todos nós. É possível fazer desta Igreja um rosto jovem, quando decididamente dissermos: Eu sou Jovem, Eu sou Igreja católica, Eu sou Igreja de Cristo. Somos marcados pela Esperança que vem de Deus e que quer fazer de nós seus discípulos-missionários. Façamos, pois, a diferença. Mostrando nossa verdadeira força.

Wesley Pires dos Santos