Encerramos
hoje o mês de Maio, Mês de Maria com a festa litúrgica que relembra o que
contemplamos todas as semanas quando rezamos o segundo mistério gozoso do
Rosário, os mistérios da alegria. Celebramos a grande alegria da manifestação
do encontro entre duas mães que estão para gerar uma, o último dos profetas,
João Batista; outra, o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo. Gostaria de chamar
a festa da visitação como a festa do encontro, a festa da proximidade. Encontro
de Deus com seu povo, já não há mais separação entre divino e humano, entre
sagrado e profano. Maria só foi rainha, só foi a cheia de graça porque foi
plenamente mulher. Já dizia um certo teólogo que “quanto mais humanos formos,
mais divinos seremos”. Poderíamos então nos perguntar: mas o que fez este
encontro ser uma festa da Alegria? Na primeira leitura, Sofonias vai dizer que
Deus habita no meio do povo, movido pelo amor, por isso, não tememos mais o
mal, porque do encontro de Deus para com o seu povo resulta reconciliação e
comunhão. A alegria que resulta deste encontro não é, pois, fantasia, mas
profunda realidade que procede da paz com Deus. ENCONTRO que gera VIDA e
ESPERANÇA. É Deus que monta sua tenda entre nós, um Deus encarnado, assumi toda
nossa condição, menos o pecado, um Deus próximo, Deus presente, Deus-conosco.
A alegria do Evangelho é alegria que vem do alto mas que, ao mesmo tempo, deve surgir de um coração de homem: é uma alegria divino-humana. É a alegria Pascal que nos transforma, quando nos deixamos também nós sermos movidos por aquele obediência total de Jesus com o Pai, a ponto de doar a própria vida pela salvação de todos. Foi movida por esta alegria que Maria hoje sai de sua pequena Nazaré, sai de si mesma, deixa as estruturas cômodas, como perfeita discípula para melhor servir e fazer a vontade de Deus. Por isso, ela sai apressadamente, quer dizer em prontidão para servir, sai de sua comodidade, ela também grávida, também necessitada, com suas dificuldades próprias, poderia muito bem permanecer em Nazaré e cuidar de si mesma e de seus afazeres. Mas não, ela decide por colocar a sua vida em sacrifício pelos necessitados, decide renunciar a ser o centro, ao seu próprio eu egoísta, deixa a preguiça e qualquer outro obstáculo, para viver a Festa do ENCONTRO, a festa da FRATERNIDADE, a festa da PROXIMIDADE que a concede a verdadeira alegria.
Thomas Merton na obra “Homem algum é uma ilha” diz que: “A verdadeira felicidade encontra-se no amor generoso, no amor que aumenta à medida que é repartido. O melhor modo de amar a si mesmo é amar os outros. É na atividade desinteressada que melhor realizamos as nossas capacidades de ser e de agir. Assim, um padre não pode estar em paz consigo ou com Deus se não se esforça por amar os outros com um amor que é, sobretudo, o de Deus.” E não foi isso que fez Maria em sua visitação? Ela sobe as montanhas para a casa de Zacarias e Isabel para ali gerar vida, esperança e alegria. É o Encontro com o diferente. Maria, uma jovem moça, símbolo da Nova Aliança de Deus com o seu povo. Isabel, uma anciã, símbolo da Antiga Aliança, que espera tornar-se mãe; Zacarias, o último dos patriarcas. Maria vai para comunicar esta imensa alegria que sentia pelo prodígio da obra de Deus operada em sua vida. Assim, com o Magnífica, sentimos a força profética desta jovem mulher, que só foi rainha, porque se despojou de si mesma para fazer a vontade de Deus, e por isso, agora canta o agir salvífico de Deus na vida do seu povo, especialmente os mais pobres, por meio dela. Ele que “derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”.
Deus habita a história, não mais em
templos de pedras, mas arma sua tenda no coração de cada homem e de cada mulher
de todos os tempos, gerando serviço, fraternidade, amor e esperança. Maria é
mulher da Alegria, porque nesta visita não leva a si mesma, mas carrega em seu
ventre Jesus. Em tempos tão difíceis, onde o povo sofre, onde há tantas pessoas
doentes, onde há sofrimento, cansaço, desesperança, muito individualismo. Penso
que a festa de hoje nos faz um grande convite, principalmente a nós que agora
mesmo seremos ministros ordenados. Esta festa nos concede pistas de como deve
ser o padre deste século. Espelhemos em Maria para melhor viver nosso
ministério. Peçamos a Ela que sempre nos inspire a sairmos de nós mesmos para
melhor servir, para que celebremos o Encontro com todos, especialmente com o
diferente, como os mais pobres e sofredores, para que amemos mais, para sermos
mais profetas. Isso é o que o mundo espera de nós, que saiamos apressadamente
para as regiões onde ninguém vai, para sermos homens da proximidade, para
escutar a quem ninguém escuta, para comunicarmos gestos de hospitalidade. O
povo não espera que sejamos perfeitos, mas o padre santo, ou melhor que busca a
santidade, é aquele que é próximo, cheio de compaixão e de misericórdia, para
com o povo. Que a Virgem Maria, perfeita discípula nos ajude neste caminho de
configuração. Maria é aquela que caminha e convida-nos a caminhar juntos.



